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Tereza Cristina fechou o Le Velmont. E agora, quem fica com a marca?

Dizem que a vida imita a arte (também dizem o contrário), mas é fato que as novelas têm tratado (até agora) o tema das marcas (e patentes) com uma licença poética exagerada e, com isso, trazendo informações equivocadas para os telespectadores. A primeira vez que notei isso claramente foi na novela Senhora do Destino, em que José Mayer interpretava o jornalista Dirceu de Castro, cujo sonho era reabrir o jornal onde iniciara sua carreira de jornalista, o renomado Diário de Notícias.

Na época o tema foi tratado com displicência e algumas informações equivocadas foram passadas ao público, como, por exemplo, de que a Maria Guilhermina Medeiros, filha da fundadora do jornal Josefa Medeiros Duarte Pinto (ambas interpretadas por Marília Gabriela) teria possibilidade de impedí-lo de usar a marca, visto que ela havia abandonado o registro que teria sido extindo (cancelado) por falta de pagamento de algumas taxas, como mencionou o próprio Dirceu de Castro. Na vida real ele simplesmente registraria a marca e não haveria possibilidade dela impedí-lo ou prejudicá-lo.

Aliás, hoje, “Diário de Notícias” é marca registrada da Globo, através de sua empresa de licenciamentos a GML Licenciamentos Ltda. (leia-se “Globo Marcas”) e, não sei se notaram, mas a repórter safada que foi assassinada na novela das 21h – Fina Estampa – era justamente repórter do Diário de Notícias, ou seja, a Globo parece estar tomando cuidado para integrar marcas e mantê-las vivas na memória dos telespectadores, isso também deve estar poupando um belo investimento em registros de marcas, imagine se continuassem criando um nome novo para o jornal “da novela” cada vez que muda a própria novela?

Mas e o Le Velmont?
E o que isso tem a ver com o E-Marcas?

Explico:
A situação hipotética criada na novela é um excelente case para discutir casos similares da vida real, quando há um sobrenome envolvido e considerando que a maioria das empresas brasileiras é de origem familiar, inclusive as gigantes Gerdau, Safra, Camargo Correa, Prosdócimo, Rosset, Pinheiro Neto e centenas de outras marcas nacionais super conhecidas.

Vamos ao caso:
Tereza Cristina é (na novela) a única proprietária do restaurante que tem como MARCA o sobrenome de seu marido, o chefe de cozinha René Velmont, o restaurante chama-se Le Velmont (O Velmont, em francês). Trazendo para a vida real, se a marca estiver REGISTRADA em nome da empresa ela poderá impedir René (o dono do sobrenome) de usar esta marca!

Você deve estar pensando:
“Isso é um absurdo, a pessoa não poder usar seu próprio nome como marca! Isso é ridículo!”

Ok, mas não foi isso que eu disse… Eu falei que ele não poderá usar a marca Le Velmont, porém, seu nome de registro (de batismo, se preferir) na trama das 21h é “René Velmont”, então ninguém poderá impedi-lo de usar (e registrar) René Velmont para restaurante.

Claro que se houver um homônimo (pessoa com o mesmo nome) que já tenha esse registro, ele vai ter que “ir dar expediente” no “Tempero da Celeste” (outro restaurante da novela).

Aliás, a Globo tem caprichado nos nomes dos restaurantes, quem não lembra do famoso Frigideira Carioca, do Marcelo Antony (ou melhor, do Cássio – da novela Paraíso Tropical). Até hoje a GML está brigando no INPI para conseguir essa marca e, pelo que vi, terão sucesso.

Com essa eu acho que a partir de agora você vai olhar diferente para as novelas, não é mesmo? Então até o proximo capítulo.

 

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Comments

  1. Silvia Zampar  December 14, 2011

    Bem, confesso: eu não assisto novelas! Por falta de tempo, por não gostar de ficar "dependente" de algo que "se arrasta" por um período tão longo, enfim, não é pela falta de qualidade da dramaturgia nacional, nem por desprezar o talento de seus autores (como você cita em seu texto).
    Aliás, achei esse post super pertinente e interessante, pois, de fato, muita gente acha que se sua empresa é seu próprio nome, esta "marca" está, somente por isso, protegida de "furtos".
    Eu já ouvi falar que diversos atores de renome, quando foram lançar produtos de marca própria descobriram que seus nomes já estavam registrados (e também domínios com seu nome). Pergunto: quem registra algo com o nome de algum famoso, ele, de fato, mantém essa marca por ter registrado primeiro?

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    • rrm32  December 15, 2011

      Silvia,

      Depende de “quão” famoso é… se tentar registrar Senna, Pelé, Xuxa, etc… vai quebrar a cara, mas há centenas de milhares de sobrenomes que podem ser registrados e causar problemas para algumas empresas… estamos falando de INPI (Marcas), porém nos domínios a coisa é bem mais complicada.

      Uma vez escrevi um artigo sobre a Deborah Secco (na época da novela América) que estava com problemas na internet: todas as variações do seu nome estavam registradas por terceiros e pelo menos uma delas direcionava para sites de pornografia.

      Acho que o caso dela já foi resolvido, mas as regras não mudaram significativamente, então qualquer famoso está permanentemente em risco.

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  2. Estela de Oliveira  December 15, 2011

    Adorei o post, o exemplo da novela foi muito bom!

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  3. Anderson  December 19, 2011

    Também adorei o Post, principalmente porque foi a primeira coisa em que pensei quando vi esta cena da novela. "De quem é a marca?"
    Outro dia ouvi um amigo comentar que "por sermos nós, brasileiros, um povo muito criativo, deixamos quase tudo pra última hora, mesmo as questões mais importantes". Concordo com ele em vários aspectos. Acrescento que os termos de registros, a forma que as leis são escritas, compostas por textos complexos e nada interessantes e quase sempre de difícil entendimento para maioria de nós, facilita muito o fato de quem está começando deixe a questão "Marca" em último plano. Na minha visão, há muita informação, pouco esclarecimento, talvez eu esteja mal informado. Na minha visão este é um dos poucos blogs que tratam o assunto de forma clara e abrangente e procura mostrar a importância da preocupação com a marca nos primeiros momentos da vida de uma empresa, a sua concepção! Parabéns pelo post! A dica que deixo para o restante de nós:" Somos um povo criativo, mas é pouco produtivo e eficaz deixar as coisas pra última hora, criatividade é 1% inspiração, 99% transpiração…"

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    • rrm32  December 19, 2011

      Anderson,

      De minha parte agradeço pelo comentário e digo que a ideia é esclarecer, transmitir um pouco de informação em lingua de gente, não em “juridiquês”.
      Você tem razão, até os artigos sobre esse tema são, em geral, chatos e quase incompreensíveis. Usar exemplos simples e, agora, as novelas, é uma forma de tornar as informações compreensíveis para todos.
      Sou muito criticado por meus concorrentes porque “dou informação demais”, eles acham que isso prejudica o “mercado”, eu penso diferente.
      Na minha opinião os verdadeiros CLIENTES são os que entendem o processo e sua complexidade e optam, POR ESCOLHA e não por falta de escolha ou por não entender “essa coisa” de registro de marca, por nosso trabalho, assim, quanto mais esclarecido é o cliente mais ele valoriza o meu trabalho.
      Quem não valoriza eu nem considero cliente, simples assim.
      Acho que essa “ideia” vale para outros serviços, como o Design, não é mesmo?

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      • Silvia Zampar  December 19, 2011

        Com certeza vale para todo o PROFISSIONAL, assim mesmo: com P e tudo mais em maiúsculo.
        Só se desespera e faz artimanhas para não perder o cliente, aquele profissional que ainda é inseguro de sua competência.

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  4. Raquel Dias  January 10, 2012

    Parabéns, Rudinei. Entrei no seu site atraída pelo ótimo texto na mensagem que você postou no Comoequetalá e não me decepcionei. Muito legal. Voltarei sempre!

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