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Você é um designer preconceituoso? Tem certeza?

 

Não, este não é um artigo sobre homofobia, racismo… Nada disso! É sobre DESIGN.

Mas leia “desarmado”, senão não conseguirá captar a mensagem. Mesmo assim tenho certeza que serei xingado, esculachado, etc. Vamos lá.

Sou consultor, empreendedor e “me viro nos trinta”, como centenas de milhares de outros empreendedores e, nessa loucura de fazer as coisas acontecerem, estou sempre buscando inovar, aprender, experimentar. Há alguns anos eu era membro da AMCHAM (Câmara Americana de Comércio) e conheci um tipo de evento chamado Rodada de Negócios (expressão de uso comum, especialmente em entidades empresariais, para descrever eventos de vendas ou de network). Participei de umas 9 edições e vi que haviam coisas muito boas no evento e outras insuportáveis.

Uma das coisas boas era o network (rede de contatos), você sai do escritório, fica umas 2-3 horas no evento e sai de lá conhecendo 48 empresas diferentes, muito bom!

Insuportável era repetir a mesma apresentação da minha empresa 7 vezes (devido ao formato do evento você tinha que se apresentar para pequenos grupos de 7 pessoas)… E a dor de cabeça?! Como as apresentações são simultâneas, em todas as mesas há sempre, pelo menos, 7 pessoas falando ao mesmo tempo, um “zum-zum-zum” insuportável.

Chegava em casa exausto, com uma dor de cabeça horrível, mas feliz com os resultados… E depois que aprendi como conduzir o evento, ficou melhor ainda.

Entendi que 90% dos participantes dali eram pequenos empreendedores e consultores, alguns advogados, designers, webdesigners, publicitários, etc., gente que, a princípio, não é meu público alvo e nem eu sou o deles… Nesse ponto você está pensando: “como assim?”.

É, a maioria dos participantes desse tipo de evento não vai comprar o meu produto/serviço e nem eu vou comprar o deles imediatamente, mas a coisa interessante é que 100% deles tem contato com alguém que é meu cliente em potencial.

Então percebi que o evento é de NETWORK: você conhece e é conhecido, para depois indicar e ser indicado.

Quando assimilei essa ideia, colhi enormes resultados, muitas das empresas que conheci nesses eventos são parceiros de negócios até hoje e geram resultados concretos. Claro que, as vezes, acontece de alguém sair de lá com um negócio fechado ou meio fechado, mas isso é exceção, onde a regra é construir um excelente NETWORK.

 

E o preconceito? 

Pois bem, depois de tentar reproduzir este tipo de evento online, com softwares de webmeeting, sem muito sucesso (conexão ruim, equipamentos das pessoas que falhavam, falta de habilidade do usuário, etc.), resolvi relançar a Rodada de Negócios, mas achei que o logotipo não era adequado para a ideia que eu tinha do evento. O logotipo antigo, criado por mim, era chato, cisudo, antipático, etc., olhando ele hoje eu acho “um tédio”, pois me lembra todas as características ruins dos eventos que participei (ah, também participei de eventos similares em outras entidades, associações comerciais, SEBRAE, etc.).

Então pensei que o “novo” logotipo precisava trazer coisas legais, que eu considerasse interessante: jovialidade, dinamismo, alegria, saudosismo… Especialmente saudosismo! Em tempos de “tudo online“, fazer eventos presenciais (sim, retornamos ao formato presencial) é uma viagem ao túnel do tempo, não é mesmo? Daí fiquei lembrando da minha infância, das séries de TV dos anos 80, dos quadrinhos e “pimba!”, era isso: quadrinhos!

Tudo ficou claro, eu precisava de um logotipo que remetesse ao universo lúdico dos quadrinhos, mas com movimento, afinal tédio é uma característica que não quero nos eventos.

Procurei uma empresa que é minha cliente e atua com concorrência criativa e coloquei o projeto em andamento… Depois alguns dias alguém apresentou algo que era 90% do que eu pedi, solicitei alguns ajustes e pronto, obtive um logotipo EXATAMENTE como eu imaginava.

Daí enviei o logotipo para várias pessoas e pedi que me listassem as suas PERCEPÇÕES sobre ele, quais os sentimentos e sensações que o logotipo lhes passava. O que recebi (junto com muitas críticas) foi:

  • Oposto de eventos empresariais tradicionais, não é formal;
  • É alegre;
  • É chamativo, como um splash;
  • É uma oportunidade única, imperdível, como uma oferta de liquidação;
  • Lembra HQ´s, anos 80, coisas do passado, bons tempos, tempo em que se faziam negócios cara a cara;
  • É saudosista: traz boas recordações – da infância para alguns, da adolescência para outros;
  • É colorido, vivo, vibrante, em movimento;
  • É um misto de show de calouros com stand up comedy, mas é coisa de amador, todos são amadores;
  • É surpreendente, ousado, original, incomum, diferente dos eventos empresariais tradicionais.

 

Em resumo:

A percepção que as pessoas tiveram é EXATAMENTE a que eu desejava o logotipo remetia diretamente ao mundo dos quadrinhos (HQ, Comics) e ainda trazia várias características que eu pretendia destacar.

Daí começou uma grande discussão (mais para briga do que debate):

Alguns designers ficaram batendo o pé que o logotipo era inadequado para eventos “empresariais”, que uma grande empresa nunca participaria de uma “coisa” dessas, que parecia o logotipo do Pânico, um splash das Casas Bahia,  que não era algo “sério”, etc.

Juro que tentei argumentar, explicar que “algo sério” era justamente o oposto do que eu queria, imaginava algo mais descontraído como um stand up comedy, afinal, no novo formato, um empreendedor vai para o “palco” e fala para os demais, assim não ficarei com dor de cabeça por causa daquele “zum-zum-zum” (risos) e como todo mundo (ou a maioria) tem medo (ou timidez) de falar em público, o logotipo informal serviria para “acalmar” afinal, se é bem informal, não precisa ficar estressado.

Não é uma apresentação para o presidente da república ou pra sua professora do primário… foi o que eu tentei explicar.

Mas os designers insistiam (não todos, alguns) que era INADEQUADO e eu tentava explicar que o logotipo executado era EXATAMENTE o que eu tinha imaginado, que se encaixava perfeitamente na linha de comunicação que eu tinha planejado, na linguagem (visual e escrita) que eu planejei, etc.

Daí a conversa transitou por vários campos, comparações, críticas, críticas, críticas e mais críticas… Poucos designers conseguiram captar 2 coisas fundamentais:

    • Eu queria algo DIFERENTE DO PADRÃO, inovador; e
    • O resultado obtido era EXATAMENTE o que eu queria.

Não sei se você notou, mas é a 3ª vez que digo que o resultado era EXATAMENTE o que eu queria… O que um designer pode querer mais? Conseguir criar algo que é EXATAMENTE o que o cliente queria. Ele pode superar essa expectativa? Talvez… Mas a maioria consegue atingir EXATAMENTE o que o cliente queria? (Pronto, agora já são 6 EXATAMENTE… Ops, agora 7!!!)

Daí surgiu a ideia deste artigo!

Eu tenho em mente que um designer precisa, OBRIGATORIAMENTE, ouvir o cliente, saber o que o cliente quer, opinar, claro, mas nunca impor a sua vontade, o cliente é quem decide o que é bom pra ele, não é uma obra de arte, muitas vezes (pra não dizer sempre) o cliente sabe mais do seu mercado do que o designer, então ele deve, no mínimo, ser ouvido.

Outra coisa importante é que o designer NUNCA deve chegar com preconceitos, ou seja, PRÉ-conceitos… Se for assim não precisa designer, alguém cria um template para aquele perfil de produto/serviço e todos usam igual.

Produtos para lavar roupa? Embalagem azul! Nada de “rosa” e muito menos “confie no rosa”! Azul é a cor desse produto.

Evento empresarial? Tem que ter gravata, terno, cores sóbrias, preferencialmente cor de terno de segurança de boate: azul marinho ou preto… Camisa branca e gravata preta ou azul, combinando com o terno = ESSE É O PADRÃO! Gravata vermelha? NUNCA!

 

PRÉ-CONCEITO.

Agora vou repetir a pergunta do título: “Você é um designer preconceituoso? Tem certeza?”

Durante os debates recebi um ótimo post que compartilho: Os 12 Paradoxos do Design – prestem muita atenção nos itens 2, 3  e 12, eles têm relação direta com este post.

NOTA: Este post não foi escrito para criticar os designers, mas sim para alertá-los, ajudá-los, mas pode criticar, brigar e xingar se quiser!

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